29 de jul de 2010

Homenagem à Iansã Guerreira - Carnaval 1995

Enredo: Homenagem à Iansã Guerreira
Autor: Comissão de Carnaval

O Unidos do Pé Grande vem contar parte de nossa história sem fugir das nossas raízes e etnia.

Exatamente como hoje, o Sol levantando-se todas as manhãs iluminando a Terra e se pondo ao final da tarde: a Lua fazendo sua silenciosa caminhada pelo céu à noite também acontecia quando Luiz Gama vivia.

A única diferença é que naquele tempo, os homens pintavam os acontecimentos com as cores da sua imaginação. Foi neste devaneio que o nosso herói se deixou levar pela imaginação, e acabou adormecendo.

E sonha que se encontra em uma mata e a Mãe Natureza mostra-lhe as trilhas. Chega a um castelo feito de espelhos e estátuas africanas fica extasiado: é dia de festa, é a consagração máxima:

Homenagem à Iansã Guerreira
Luiza Mahim, Senhora das Guerras e das Tempestades

Em seu cortejo tem 12 guerreiras e 12 ministros, com seus trajes maravilhosos. No seu sonho, Luiz vê coisas que somente hoje poderiam existir, como fonte iluminada com repuxos de água e com esculturas africanas. Num dado momento, um arauto anuncia a presença dos Grandes Deuses Africanos: 

Xangô, rei dos Iorubas;
Oxossi, rei do Queto, caçadores e da caça;
Ogum, general das guerras, senhor dos ferros;
Oxum, deusa do dengo, elegância, do fausto, das águas e fontes;
Obá, guerreira do Rei do Rio Obá;
Oxalá, senhor da África unida.

Muitas tribos africanas estão presentes: mandingas, fulas, gegês, malês, cafundis, rebolos e outras. Presentes e mais presentes de toda África: animais, bebidas, comidas, flores, ouro, diamantes, etc.

Luiz Gama fica mais extasiado ainda quando é convidado a comparecer a presença da Rainha Guerreira Iansã e acorda subitamente.

E começa a lembrar de sua origem.

Luiza Mahim, símbolo de luta da mulher negra pela liberdade, a etnia gegê, nasceu livre na Bahia por volta de 1812. Era uma época bastante conturbada com levantes que negros livres e escravos levavam a cabo desde 1807, na história conhecido como Revolta dos Malês. Malê deriva de Mali, nome de um Reino da África de onde vieram um número reduzido de escravos para o Brasil. Associam-se também a este nome aos que o governo da época chamava os negros Sem Lei ou Malei. Luiza cresce à época dos levantes de 1813 à 1830. Neste último ano ela encontrava-se grávida, dando a luz a um filho que viria se tornar um dos maiores abolicionistas da história do Brasil: Luiz Gama. Ele cresce politicamente, organiza e participa ativamente de todas as revoltas desencadeadas na cidade de Salvador e arredores contra o regime de escravidão.

Começam os preparativos para a Grande Insurreição dos negros de todas as raças: minas, tapas, gegês, mandigas, iorubás, hausás se juntam para a grande luta. Sob a liderança dos escravos Diogo, Ramires, Cornélio, Tomás, Conrado e Aprígio e de negros alforriados Belchior Silva Cunha, Pacífico Licustã, Manuel Calafate, Elestão Dandara, Luiz, as negras Engrácia e Luiza Mahim. O plano foi elaborado e as tarefas distribuídas, mas não foi cumprido na integra por delação. A cidade ficou em pé de guerra, a pressão era brutal. Estabeleceu-se a devassa completa com invasão das casas dos africanos e senzalas. Muitos foram tiveram castigos de açoites em praça pública e 5 condenados à força, embora o governo não encontrasse carrasco que os executasse. Luiza Mahim conseguiu escapar da repressão e teve destino o Rio de Janeiro aonde continuou sua luta pela liberdade.

Mulher magra, bonita, cor negra retinta, sem lustro, dentes alvíssimos como a neve. Altiva, generosa, sofrida, vingativa. Era quitandeira laboriosa. De 1837 a 1861 viveu ativamente na Corte. Em 1862 disseram que ela, em companhias de Malungos Desordeiros em busca da fortuna foi posta em prisão. Neste tempo foi deportada para a África, uma forma do governo conter os negros revoltosos.

Mas esta mulher negra tornou-se pela sua força de luta, auto determinação e de liberdade um símbolo que é homenageado neste enredo.


COMPOSITOR: MESTRE DUDU

VEM PÉ GRANDE HOMENAGEAR O QUE, O QUE
IANSÃ GUERREIRA COM MUITO AXÉ
VAMOS SAUDAR

NOS TEMPOS QUE LUIZ GAMA VIVIA
OS HOMENS PINTAVAM OS ACONTECIMENTOS
COM AS CORES DA SUA IMAGINAÇÃO

NESSE DEVANEIO DE LUIZ NOS MEUS ACORDES
VOU CANTAR A SAGA DE IANSÃ GUERREIRA
SENHORA DAS GUERRAS E DAS TEMPESTADES
SÍMBOLO DE LUTA DA MULHER NEGRA
PELA LIBERDADE DE UMA RAÇA TÃO SOFRIDA

NASCEU LIVRE NA BAHIA NUMA ÉPOCA
BASTANTE CONTURBADA NEGROS ESCRAVOS
CASTIGADOS NO AÇOITE ESPANCADOS SEM PERDÃO
ÔÔ NA MAIS PURA HUMILHAÇÃO

IANSÃ CRESCEU ACOMPANHANDO TODO AQUELE SOFRIMENTO E AGONIA
SOBRE MUITA REPRESSÃO BRUTAL
DAVA INÍCIO A REVOLTA DOS MALÊS
TODAS TRIBOS ESTÃO PRESENTES PARA A BATALHA FINAL
GEGÊ, MALÊS E IORUBAS, MANDINGAS E FULAS

Ô ÁFRICA
ÁFRICA UM GRITO FORTE ECOOU, ECOOU
DO CATIVEIRO COM MUITA LUTA
O NEGRO SE LIBERTOU

É DIA DE FESTA E A CONSAGRAÇÃO MAIOR
AO SOM DOS ATABAQUES AFRICANOS EU VOU SAMBAR
ATÉ O DIA CLAREAR, CLAREAR
FONTE ILUMINADA, CASTELO FEITO DE ESPELHOS
E ESTÁTUAS AFRICANAS

CHAMA TODOS OS ORIXÁS PARA ESSA FESTA TRIUNFAL
IANSÃ GUERREIRA VAI BRILHAR NO CARNAVAL.

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